Arte-educação multicultural: contribuições africanas para a formação cultural brasileira

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O multiculturalismo é denominador comum dos movimentos em busca da democratização da educação em todo o mundo. Segundo Barbosa (1998, p.80): “Hoje a necessidade de uma educação democrática está sendo reivindicada internacionalmente. Contudo, somente uma educação que fortaleça a diversidade cultural pode ser entendida como democrática.”

A identidade cultural de uma nação é constituída por meio das inter-relações culturais. O professor precisa trazer para a sala de aula a preocupação com a diversidade cultural, pois na escola se inter-relacionam indivíduos de diferentes culturas.

Um currículo que contemple a diversidade e a multiculturalidade é um anseio e ao mesmo tempo um desafio. Nas escolas, no que se refere às Artes especificamente, observa-se com grande freqüência a presença de conteúdos norteados pelas produções artísticas européias, deixando de lado manifestações como as da arte africana e afro-brasileira.

Sabe-se que desde janeiro de 2003 foi promulgada a lei 10.639, a qual visa promover uma mudança nesta realidade, obrigando que o currículo escolar contemple os conteúdos de história e cultura africana e afro-brasileira, especialmente nas disciplinas de História, Literatura e Artes.

No ano de 2006, minha pesquisa de TCC teve como tema a experiência de implementação dos estudos de arte africana e afro-brasileira na escola pública, sob orientação da professora doutora Elizabeth Milititsky Aguiar. Na ocasião, pude constatar que a existência de uma lei por si só não garante sua efetivação. Na escola estudada, a lei sequer era conhecida.

Convencida da importância do tema, passei a incorporá-lo em meus planejamentos anuais, sendo que no ano de 2008, o projeto “Contribuições africanas para a formação cultural do Brasil” foi trabalhado com duas turmas de 7ºs anos do Colégio de Aplicação da UNESC, localizado na cidade de Criciúma. O objetivo geral do trabalho foi reconhecer a presença africana no Brasil, identificando as diferentes manifestações culturais deste povo e sua influência na formação cultural brasileira.

Antes de abordar a cultura afro-brasileira, procurei saber a imagem que os alunos possuíam da África. Por meio da linguagem do desenho, os alunos deixaram clara a concepção que tinham do continente: deserto, fome, pobreza, povo selvagem, foram as características mais destacadas. Importante frisar que alguns alunos pensavam que a África fosse um país, noção que foi esclarecida com os estudos.

Partindo da premissa de Hernández (2000) o qual diz que, para compreender a Arte de um povo é preciso ver suas obras não como algo isolado e sim, conhecer a cultura da qual procedem, os alunos assistiram um vídeo “África antes da colonização européia”, o qual mostra que antes mesmo da chegada dos europeus os africanos já dominavam técnicas sofisticadas de fundição de bronze. Os alunos ficaram admirados em saber que grande parte do acervo de arte africana está nos museus europeus.

Para que os alunos compreendessem a riqueza da Arte africana, foram realizadas leituras de imagens de obras de arte africanas. Os alunos perceberam que a escultura é a manifestação artística mais importante do continente, reconheceram a simetria enquanto característica marcante obras de arte africanas.

O fazer artístico nesta etapa do trabalho teve como objetivo colocar em prática os estudos realizados até então, bem como propiciar aos alunos o contato com diferentes técnicas e materiais. Os alunos produziram esculturas usando blocos de argila, sendo que esculpiram usando a técnica subtrativa por meio de entalhe, de modo a simular o trabalho realizado pelos africanos quando esculpem a madeira. Segundo CUNHA (1983) a técnica em madeira “marcou de tal modo o artista africano que, ao trabalhar a pedra, modela-a como um tronco de madeira.” Vale ressaltar que os alunos tiveram certa dificuldade em realizar os trabalhos, em virtude de estarem habituados a produzir esculturas usando a técnica de modelagem, especialmente com o uso de massa de modelar. Com algumas orientações no decorrer do processo, a turma superou as dificuldades e ficou satisfeita com os resultados. O resultado das esculturas mostrou que os alunos compreenderam a simetria com característica dominante das obras de arte africanas.

Numa outra etapa dos trabalhos, as turmas envolvidas apreciaram a animação francesa “Kiriku e a Feiticeira”. Trata-se de um desenho animado que enfoca o continente africano por um prisma diferente das produções convencionais, mostrando uma África livre de estereótipos. Depois da apreciação, discutimos os aspectos relevantes do filme, sendo que os alunos foram instigados a tentar reconhecer que características do filme podiam ter relação com o Brasil. O colorido das roupas, a musicalidade, a animação foram pontos destacados. Este era o conhecimento prévio que os alunos possuíam, o qual necessitava ser aprofundado para que o objetivo geral do projeto fosse alcançado.

Um dos alunos envolvidos trouxe em certa aula um texto intitulado “E se... o tráfico negreiro não houvesse existido?” O texto aborda de forma sucinta como seria o Brasil sem a contribuição cultural afro-descendente. O texto apontava resumidamente a contribuição africana para a música, a culinária, o vocabulário da língua portuguesa e a religiosidade. Partindo do entendimento de que os alunos são sujeitos ativos e protagonistas do processo de aprendizagem, o texto trazido foi acolhido, lido e debatido com as turmas envolvidas. A turma foi dividida em grupos, sendo que cada um deles ficou responsável pela pesquisa de um dos temas.

Entende-se aqui a pesquisa não como mera coleta de informações, mas como um processo dinâmico que pressupõe o questionamento reconstrutivo. Todas as etapas da pesquisa foram realizadas em sala de aula, sob orientação e olhar atento da professora. O acompanhamento constante permitiu que os alunos saíssem da condição de mero reprodutores, sendo que, a partir de diversas fontes, elaboraram seus próprios textos.

O fazer artístico novamente aparece. Os alunos foram desafiados a elaborar produções artísticas usando diferentes materiais à escolha do grupo. Caixas de papelão, tecidos, cones de linha, papéis coloridos, objetos do cotidiano, xeróx de imagens foram transformados pelas mentes e mãos criativas dos alunos, partindo do repertório teórico.

Um dos tantos pontos importantes a destacar, foi a presença da avó de um aluno na escola no dia da apresentação dos trabalhos. O grupo responsável pela culinária trouxe a senhora até a sala de aula, onde, com auxílio dos meninos, preparou o quibebe, prato de origem africana. A sala de aula literalmente ganhou novo sabor: todos puderam degustar o quitute preparado pelo grupo.

Os aprendizados teóricos e práticos do projeto foram socializados para todas as outras turmas da escola, inclusive as séries iniciais. Os alunos envolveram-se tanto nos trabalhos, que se dispuseram a vir fora de seu período de aula apresentar os trabalhos aos pequenos.

Com o intuito de extrapolar os muros escolares, os trabalhos foram divulgados na mídia local, por meio de imprensa escrita. A publicação possibilitou que a comunidade externa também conhecesse a contribuição africana para a cultura brasileira.

Percebeu-se que ao final do projeto os alunos passaram a valorizar mais a cultura afro-brasileira. O trabalho permitiu a quebra de preconceitos referentes à África e sua cultura, sendo que os alunos reconheceram que a mídia enfatiza a imagem negativa do continente.

Foi uma experiência enriquecedora para mim enquanto arte-educadora e para os alunos, onde se constatou a aprendizagem significativa dos conceitos trabalhados. Além disso, o fato de a maioria dos trabalhos terem sido realizados em grupos permitiu que os alunos aprendessem a conviver com o outro, tomar decisões, resolver conflitos e respeitar a opinião alheia. 

Fragmentos de textos produzidos pelos grupos denotam o aprendizado e a importância dada ao estudo do tema:

“Nesse trimestre estudamos sobre a África no geral e como a mídia nos mostrava: pobreza, guerras e fome. E nós achávamos que ela era como a mídia nos mostrava. Estudando melhor, vemos que a África nem sempre foi assim, já teve impérios e reinos e suas próprias culturas e crenças. Começamos a ter um novo pensamento sobre a África. A África influenciou em muitas coisas no Brasil, e uma delas foi a religião.” (Diego, Fernanda, Monique, Natália e Tainan – 7º 1)

"Sem a presença africana no Brasil nosso país seria bem diferente, sem muitas variedades culturais na música, religiosidade e vocabulário. A comida brasileira é uma mistura das tradições indígenas, européias e africanas. Todas estas contribuições são importantes, mas a africana é a mais destacada."(Cíntia, Fernanda A., Fernanda P., Giuliana, Luana e Natália B. - 7º 2)

“A África é um continente de muita história, onde existem muitas culturas e ritmos musicais. Vários ritmos africanos aparecem no Brasil, sendo que os principais são: Lundu: o lundu foi criado a partir dos batuques dos escravos e foi trazido da Angola. Samba: o samba é o mais famosos ritmos e até hoje é cantado e dançado em várias partes do Brasil.” (Grasiele P., Graziele L., Marian, Tainara e Weslen – 7º 1)

“Se não fossem os africanos, hoje nosso vocabulário seria igual ao de Portugal. Antes do território brasileiro ser descoberto, os africanos já falavam mais de mil línguas diferentes, que deram origem a muitas palavras que hoje são encontradas no vocabulário português no Brasil. (Luiz Henrique M., Matheus, Mozart, Stéfano, Vitor B.  -  7° 2)

“Palavras como samba (dança muito popular no Brasil) veio da África e lá era uma dança de feiticeiros. Banguela, palavra no Brasil dita como “sem dentes”, na África era quando uma pessoa arrancava alguns dentes para rituais. Farofa é também uma palavra de origem africana, que lá significa “preparar frio”. As palavras moleque, cafuné, gangorra, também são de origem africana.”  (Carolina, Gabriel, Guilherme, João Henrique e Lucas – 7º  1) 

“Os cultos religiosos trazidos pelos povos africanos sincretizam-se com o catolicismo, dando origem aos chamados cultos afro-brasileiros. O sincretismo religioso então é a união das crenças africanas com o catolicismo.”  (Beatriz, Graziele, Laura, Leonardo, Natália W., Ronald -  7° 2)

“A cultura africana influencia bastante no Brasil, como na música, na religião, nas danças e na culinária. O nordeste é o local mais influenciado pela África. Lá, um dos pratos mais conhecidos e trazidos pelos africanos é o acarajé. A culinária é uma das contribuições muito importante.”  (Henrique, João P., Luciano, Luiz Gustavo e Vitor – 7º 1)

“O primeiro samba gravado no Brasil foi “Pelo telefone”. Alguns dos diversos instrumentos musicais africanos: berimbau, caxixi, agogô, atabaque.  (Eliseu, Gustavo, Juliano, Luiz Henrique R., Roger e Tiago – 7º 2)

 REFERÊNCIAS:

 Arte da África. Organização de Peter Junge; co-organização de Alfons Hug. Coleção do Museu Etnológico de Berlim. Catálogo da Exposição realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil. São Paulo, jan./mar. 2004. il.

 BARBOSA, Ana Mae. Tópicos Utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998. 198 p.il.

 BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial, 2005. 35 p.

 CUNHA, Mariano Carneiro da. Arte afro-brasileira. In: ZANINI (Coord.). História geral da arte no Brasil, vol. 2, 1983. p. 1973-1033.

NOGUEIRA, Marcos. E se... o tráfico negreiro não houvesse existido? Super Interessante, São Paulo, p.48-49, Fev. 2004

Grandes impérios e civilizações a história visual do mundo. Vol. nº12: África antes da Colonização Européia. São Paulo : Del Prado, 1996. 1 videocassete (25 min) . VHS.. NTSC/VHS: son., color., stereo

HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura Visual, Mudança Educativa e Projetos de Trabalho. Tradução de: Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 261 p. il.

Kiriku e a Feiticeira. Produção de Michel Ocelot. 1 dvd. São Paulo: Paulinas Multimídia, 1998. 1 dvd (74 min).

 

 

 

arte africana. cultura africana. educação multicultural.

quinta 23 outubro 2008 14:31



14 comentário(s)

  • rafael Seg 23 Set 2013 23:11
    isso e uma porra
  • leila Qui 22 Nov 2012 20:52
    Vocês, que comentaram, nem sabem escrever, e estão falando mal do blog e da boa vontade da pessoa que postou o texto. Querem melhor, leiam, estudem aprendam a escrever e depois produzam os seus respectivos textos.
  • afm Seg 25 Jun 2012 14:32
    esse site e orrivel a gente pede umas palavras e eles vem com quase um livro
  • Rafaela sem do nem pi Ter 13 Mar 2012 00:01
    não explica nada isso não texto e um lixo que não utiliza para explicar.UMA PERGUNTA.
    isso e um texto? para mim não e
  • rafaela Seg 12 Mar 2012 23:52
    muito grande,chato e enjuativa
  • dariane mailto Qua 14 Dez 2011 22:15
    eu tb não entendí foi nada.se quiser fazer um blog faça direito
  • carol Seg 28 Nov 2011 01:54
    nao esplica direito agente fica perdidinho...
  • elaine mailto Qui 24 Nov 2011 15:30
    precisa melhorar um pouco nao dar para entender nada
  • amanda mailto Ter 22 Nov 2011 03:09
    tem muita coisa eu so pedir um resumo nao um livro
  • amanda mailto Ter 22 Nov 2011 03:09
    tem muita coisa eu so pedir um resumo nao um livro


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